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domingo, 22 de maio de 2016

Juca Marmita, Nº 759

Juca Marmita


Juaquim Augusto Dos Santos com u não com o, talvez por erro do cartório talvez por ignorância dos pais; nome de nascimento bonito poético pomposo digno de celebridades e da nobreza no entanto na prática somente Juca, Juca Marmita. Mais mulato do que negro feio estrábico olhos tortos mas de uma tonalidade rara linda de um verde das ondas do mar. Relativamente jovem trinta e poucos anos pensionista do INSS a mão esquerda inútil sem movimento acidente de trabalho, o sono a prensa a dor, hora extra de valor minguado, que ironia em plena folia de um domingo de carnaval.
Pela fatalidade indenização de algumas centenas de Real e proventos de um salário mínimo; ocupação atual engraxate de rua cômico e trágico; um engraxate maneta. Facetas do mundo cão ora comédia ora tragédia.
A família um grande peso, mãe entrevada setenta anos pai semi-louco bastante mais velho além dos oitenta, sem mulher sem filhos sem outros parentes; o arrimo deles e sempre discriminado como a maioria dos negros.
Só no alto do prédio em construção a um passo do nada. Lá embaixo os carros iguais de brinquedo e as pessoas pequeninas formigas todos num incessante pra lá e pra cá. Acima o céu nevoento nebuloso tenebroso mesclado de nuvens cinzentas enormes e assustadoras prenúncio de chuva forte violenta destruidora algoz de barracos frágeis como o dele; um amontoado de tábuas, ripas, papelão, plástico, zinco enfim de velhas sucatas todas dádivas do lixo. Um barraco ainda de pé só por milagre...milagre doce palavra louca quimera um dom de Deus, um Deus tão ausente distante e impalpável como o vazio na sua frente um Deus talvez de outros mas nunca dele.
Ficção ou realidade? E daí, dúvida sem sentido agora desnecessária. Um dos pés já sem apoio, dentro em pouco o final de tudo.
Nesse momento ao longe o clarão de um raio e o contorno da cruz da velha igreja, um lampejo de fé de consciência contra o ato insano, pobres dos velhos pais sozinhos doentes... um novo sentimento um novo pensamento fora desânimo fora descrença e outras coisas ruins; amanhã novo sol novo dia, um afã de coragem de esperança.
Talvez o destino talvez o acaso, sobra de azar falta de sorte ou um pouco de tudo isso no golpe de morte. Repentinamente um vento traiçoeiro o corpo em queda livre o grito de aflição o chão cada vez mais perto enfim o estrondo do baque. Pela calçada pedaços de ossos e carne pela rua no negro asfalto a mancha vermelha como em cachoeira de sangue e chuva pelas frestas do bueiro.
Pedaços mil pedaços do Juca Marmita o começo ou o fim dos castigos talvez pelos erros seus; agora nos braços ou não de Deus.//

Música 759, R.Bozza / R.F.Bozza.


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